Sobre “cura gay”, ameaça gay… E sabonetes antibacterias


Cara, imagina que você é o marketeiro de uma fábrica de sabonetes. Não estou falando de uma fábrica fundo de quintal, não. Estou falando de uma multinacional do setor. E você precisa aumentar as vendas do produto do seu cliente. Criar um comercial explicativo ౼ e chato ౼ sobre a importância de lavar as mãos certamente não funcionaria.

Mas, e se você adicionasse uma substância anti-bacteriana na fórmula do produto, e então fizesse uma propaganda com bebês bonitinhos, dizendo que o seu sabonete mata 99% das bactérias e deixará sua família livre da ameaça? Que mãe seria desnaturada a ponto ignorar a chance de proteger sua família, ainda que ela tivesse que pagar o dobro pelo seu “super sabonete”? Que mãe, após ver seu filho doente, não lembraria de comprar o seu “super sabonete” e evitar outro episódio de enfermidade em seus filhos?

Ainda que você não diga a mãe que o sabonete que ela sempre usou mata…. Exatamente os mesmo 99% de bactérias. Pela metade do preço.

Nesses dias, assisti um vídeo muito interessante, que explicava como a mídia, a publicidade (e por que não dizer a política e a religião?) se usa do medo para vender seus produtos.

É simples: você cria ou potencializa uma situação de medo (ainda que seja inverídica), sensibiliza e alarma seu público, e então você apresenta a solução salvadora.

É isso que aquele jornal de fim de tarde faz a respeito da violência. Sim, sabemos que o Brasil é um país violento. Mas basta uma semana assistindo o tal jornal e a sensação que você tem é de que você não conseguirá chegar vivo nem mesmo na padaria da esquina. E você precisa continuar assistindo o jornal para se manter informado e salvar a sua vida, não é? Audiência garantida!

Até hoje me lembro de um cadeirante pedindo esmola no trem, desejando aos que não deram esmola que “Deus nunca os deixasse passar pelo mesmo”… Aquele cara ganhou em dez minutos de esmola o que eu não ganho em uma semana de trabalho…

E é assim que funciona: fale que seu sabonete mata bactérias, fale que a violência vai matar seus filhos, fala que este candidato é comunista, que aquele outro vai trazer de volta a ditadura…

Fale que um juiz de algum estado, que você nem lembra muito bem, aprovou a cura gay. Isso mesmo! A cura gay está aprovada. Ainda que isso não esteja escrito em lugar nenhum, deixe subentendido que agora eles sairão abordando homossexuais nas esquinas e os internando compulsoriamente. Consiga vários cliques no site do seu jornal. E se você é um político, ano que vem tem eleições, e então você se apresenta para toda uma comunidade ౼ que sofre sim com discriminação, mortes e preconceitos ౼ como a solução para preservar o direito a diversidade. E garanta mais quatro anos em sua confortável​ cadeirinha no congresso…

Mas você também pode atingir o outro público. Basta falar que “em alguma cidadezinha, a prefeitura aprovou o kit gay”. Deixe subentendido que agora as escolas ensinarão seus filhos a serem gays. Garanta seus cliques. Apresente-se como o pastor que tem a palavra de Deus, e precisa ser financiado para continuar sua cruzada em favor da família brasileira. E como no ano que vem tem eleições, basta confirmar sua candidatura, os votos estão garantidos.

E assim, através da metodologia do medo, todos nós ౼ gays ou não ౼ nos tornamos massa de manobra nas mãos de gente que nos ganha pelo pavor.

Porque não falar sobre os criminosos que matam não apenas gays, mas negros, estrangeiros, nordestinos? Talvez porque isso não esteja causando tanto apelo?

E será que a igreja precisa mesmo de manter uma bancada no congresso para promover a “cruzada contra gays, e em favor da família”?Homossexualidade é pecado”, eles vão dizer. Mas corrupção também é pecado, aliás um pecado que afeta muito mais a nossa vida diária. E eu não vejo pastores pregando contra isso. Não vejo, no Congresso, uma “Bancada Evangélica contra a corrupção”. Aliás, o que vejo é muitos pastores envolvidos nas denúncias…

O que eu tô querendo dizer é que não importa se você é gay, crente ou um Super Sayadin, tá na hora de sermos um pouco mais inteligentes e nos livrarmos das amarras de quem está promovendo o medo. Devemos tomar cuidado toda vez que alguém quiser nos dividir entre “nós” e “eles”. Se nós fossemos unidos, como cidadãos de uma mesma nação, talvez fossemos fortes o suficiente para exigir nossos direitos, e derrubar quem não cumpre seus deveres, ainda que receba milhares de reais (fora as regalias) só pra fazer isso.

E é disso que eles têm medo.

PS1: Quanto aquilo que está escrito em Romanos 1, 1 Coríntios 6… Ora, todos nós sabemos o que está escrito. Mas os crentes deveriam gralhar menos e ouvir mais, dar o ombro mais, e orar mais. Porque letras todos podem ler, mas só o Espírito Santo pode convencer e converter.

PS2: “Meus amados irmãos, tenham isto em mente: Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se, pois a ira do homem não produz a justiça de Deus.” (Tiago 1:19‭-‬20 NVI)

PS3: O vídeo do Canal Nerdologia  que citei:

PS4: Um video game muito caro, moço. Quero não. 🙂

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Sobre Haitianos, Xenofobia e a Pátria que buscamos


xenofobia

E ESSE MONTE DE HAITIANO NO MEU ÔNIBUS PARA O TRABALHO? Falando alto, num idioma desconhecido. Incomoda. Não sei o que eles estão falando. Será que estão me zoando? Minha roupa, meu cabelo?

Eles estão aqui, sentado no meu ônibus, indo para o meu emprego, no meu país. E os caras já estão soltando palavras em português! Mal chegaram…

Fala sério. Não seja hipócrita: não é fácil aturar estrangeiro. Principalmente se não for americano, europeu, civilizado. É bonitinho o jeito que eles falam “esse menina…”

Agora, esse povo que vem roubar meus empregos…

Não é fácil aturar estrangeiro. Não é fácil aturar o gay que trabalha na minha empresa. Nem o meu vizinho católico. Até mesmo o meu parente, crente, mas da outra denominação, tá difícil aturar. Odeio música gospel!

Mas então eu lembro do evangelho. Ele não é sobre coisas que gostamos de fazer, mas sobre coisas que TEMOS que fazer.

Não deve ter sido fácil pra Jesus deixar a santidade dos céus e conviver com essa lá de pecado dessa terra. Não deve ter sido fácil suportar esse monte de religioso hipócrita dizendo que está falando em nome dele, mas só queriam saber de fama e dinheiro.

E Jesus foi visto com a estrangeira, com a adúltera, com o cobrador de impostos​. Realmente, não deve ter sido fácil.

Não adianta. Querer ser cristão sem cultivar a tolerância é como querer comer manga sem sujar as mãos. Não dá.

Assim como Jesus, deveríamos ser o povo que ouve a todos, fala com todos, e mesmo não concordando com ninguém, consegue ser amável como Cristo foi. E pronto a dar a salvação, sem acepção de pessoas.

Sem acepção de pessoas, assim como diz Tiago em sem capítulo 2.

Aliás, se os haitianos me incomodam tanto por estarem na minha terra, devo me lembrar que eles são peregrinos aqui, estão de passagem. Na verdade, eu também deveria me lembrar que sou peregrino aqui.

Se me incomoda tanto ver alguém pisando no solo do meu Brasil, talvez isso signifique que o Brasil é a minha pátria. Já não sou mais peregrino. Já não procuro mais outra pátria. Já estou contente com essa. Talvez seja esse o motivo do sorriso no rosto do haitiano aqui no ônibus: ele está aqui nesta pátria insalubre de passagem. Ele alimenta a esperança de voltar para o seu lugar.

Que possamos todos nutrir a esperança de encontrar o nosso Lugar. Afinal, este Brasil não é a nossa terra prometida.

No ônibus


Caso 1: Tarde da noite, o ônibus que nos leva do trabalho de volta pra casa finalmente passou. E como sempre, lotou, mas consegui sentar, pelo menos. Ao meu lado, um haitiano. Não conversamos nada, fiquei o tempo todo no celular. Enfim, este não é o foco do texto. O que importa é que quando o ônibus chegou num determinado ponto, o rapaz haitiano desceu. E então pude ouvir o diálogo entre dois homens que estavam em pé naquele ônibus, próximo ao nosso banco.

“Senta aí” – disse um, apontando para o lugar onde haitiano estava sentado, ao meu lado.

“Não…  Não quero não. Senta você.”

“Eu não. Senta você. Eu estou cansado. Trabalho o dia todo sentado. Pode sentar.”

“Não… Não quero não…”

E a lenga-lenga persistiu por mais um tempo. Eu, no meu celular, nem percebi quando a conversa terminou. Mas fiquei pasmo com o que vi minutos depois: os dois homens sentados num par de bancos um pouco a frente do meu.

Ué? Eles não estavam cansados de ficar sentados o dia todo? Ou é justamente aquilo que eu estou pensando?

Caso 2: Eu e minha esposa, voltando da faculdade, esperando o ônibus. De repente chega um cadeirante no ponto. Não sei se acontece com você, mas sempre que vejo um, me vem a cabeça o quanto essas pessoas sofrem em nossas cidades com acessibilidade mínima. Que bom que, pelo menos por aqui, na zona oeste da Grande SP, quase todos os ônibus já tem elevadores para cadeirantes, mas não são raros os casos em que a aparelhagem não funciona, ou pior: o cadeirante contribuinte tem que encarar a má vontade do funcionário da empresa de ônibus como se estivesse pedindo um favor, e não usufruindo do seu direito. 

Não demorou muito e o ônibus chegou. Uma fila deles, aliás, inclusive o que o cadeirante ia utilizar. O cobrador desce do coletivo para atender o cadeirante, é o motorista, não se sabe porquê, começa a buzinar o ônibus feito louco. 

Mas, pera: Ele está em uma parada, compartilhando o espaço com mais meia dúzia de ônibus. Não precisa buzinar. O ônibus a frente dele, tão logo pegue os passageiros, vai dar partida e ir embora, não é?

Bem, o ônibus logo atrás, lá no fim da fila, era o nosso. Eu e minha esposa subimos, e comentei com ela se o motivo do nervosismo repentino do motorista era aquele mesmo que a gente está pensando…

A gente crítica governo, crítica política, crítica político. A gente se diz religioso, se diz cristão. A gente se diz educado, cidadão, civilizado. Mas cenas como as descritas acima acontecem todos os dias. E talvez nós mesmos já tenhamos participado, seja como vítimas ou culpados disso tudo.

Parece que a gente esquece que qualquer dia desses (Deus nos livre!) um desses ônibus pode passar em cima de nossas pernas, e seremos nós os cadeirantes dá vez.

E nos carregamos, orgulhosos, a fama de pais acolhedor. Mas amamos acolher turista americano e europeu, que na verdade não precisa ser acolhido. Enquanto o pobre coitado, que vem refugiado da guerra ou de um desastre natural é tratado como lixo, como terrorista, sob o argumento mesquinho de que “vão roubar nossos empregos”. Odiamos quando somos tratados assim lá nos States, mas fazemos exatamente igual aqui. Dá pra entender?

Até a lei de Moisés, dada por Deus, prévia que deveríamos tratar o estrangeiro com humanidade. 

Trago esses exemplo aqui, num espaço “cristão”, para que os cristãos reflitam: será que nós estamos repetindo gestos assim?  Será que na correria do dia a dia estamos esquecendo de sermos humanos, como Deus nos criou? Será que estamos esquecendo de praticar o amor de Cristo? Porque seria crente na igreja, sem os confrontamentos da vida é muito fácil. Mas é nessas horas, no meio da rua, é que damos o nosso testemunho.

Obvio que ninguém aqui é santo. Muito menos o que vos escreve. Mas da mesma forma que isso me serviu de alerta, eu espero que te sirva também.

Sobre tatuar os pecados das pessoas na testa


Tenho certeza de que a maioria das pessoas que se condoeram com a situação do rapaz não apóiam a bandidagem, e não acham bandido bom (e não vão leva-los pra casa). Essas pessoas apenas estão criticando a resposta exagerada do rapaz tatuador.
Da mesma maneira, estou certo de que aqueles que defendem, em sua maioria, não são pessoas sem coração, e sim gente cansada desse mundo injusto que vivemos, onde parece que sempre o bandido é que se dá bem e a vítima é que se dá mal.
A verdade é que todo esse mar de injustiça está cansando todos nós. Como certamente cansou o tatuador, que em um momento de raiva, tomou uma atitude exagerada. Mas não me atrevo a critica-lo, afinal, com cabeça quente fazemos muitas coisas, não é?
Mas nós aqui, em nossos celulares, nos achando os juízes de tudo e de todos, não estamos com a cabeça quente como o rapaz, é o que se espera de nós é um pouco de equilíbrio e bom senso. E se dizemos acreditar em Deus então, espera-se muito mais bom senso ainda.
Não me envergonho de dizer aos quatro cantos que creio não apenas em Deus, mas creio que Ele enviou um Redentor – seu próprio filho – em favor tanto do bandido como do mocinho. Pois ambos são vítimas do mesmo pecado, que escraviza um para oprimir o outro. Por essas e outras é que não sou a favor de que cabeças sejas marcadas com os pecados das pessoas, porque creio num Cristo que pode apegar toda a escrita de culpa das nossas vidas, se assim cremos.
“Apronta a vida toda e agora vem dar uma de crente, com a Bíblia na mão”. Exatamente! O cristianismo de Cristo (e não os das religiões) é justamente sobre isso: pegar gente do meio do lixo, do meio do inferno, e transformar em gente digna. E cada vez que perdemos a fé nisso, estamos indo cada vez mais pro buraco.
E, para terminar: se virasse lei tatuar o último pecado das pessoas em suas cabeças, o que estaria tatuado na sua agora?

Duas (entre tantas) histórias sobre luto


HISTÓRIA 1: Aconteceu ontem, no meu trabalho. Não sei bem quem era, nunca o vi. Aliás, quando você trabalha no centro logístico de uma das maiores redes de varejo do Brasil, que funciona 24 horas por dia e 7 dias por semana, tendo mais de mil colegas de trabalho, fica difícil conhecer cada um deles. Tudo o que eu sei é que era um rapaz do primeiro turno. Não posso garantir a veracidade dos fatos, quero dizer, não posso pontuar com fidelidade, passo a passo, tudo o que aconteceu, mas teria sido assim: ele, na fila da lojinha de conveniência que há la na firma, teria decidido desistir da compra por estar com pressa. Assim, saiu com a moto, e à 3 minutos dali, em um dos acessos à rodovia Castelo Branco, teria se envolvido em um acidente fatal, sendo atropelado por um caminhão.

HISTÓRIA 2: Esta, bem mais famosa, pois já toma todos os noticiários do mundo, porém não menos triste. Um time de futebol que ascendia no cenário nacional e internacional. Jogadores jovens que viviam a expectativa de disputar um título internacional. Um time, que por sua história, virou uma espécie de “xodó” entre os que acompanham futebol. Talvez porque representa o pequeno que pode vencer o grande, e faz viver em nós a velha, mas viva história do pequeno Davi e sua improvável vitória sobre o gigante Golias. Certamente porque de certa forma realiza o desejo de todos nós, que nos sentimos tão pequenos diante de todas as dificuldades do mundo. Era um pequeno que vencia os grandes, e nos fazia lembrar que pequenos também tem chances de vencer os grandes. Então, quando vimos as noticias, quando vimos o pequeno abatido, morto e ferido entre os destroços daquele avião, todos nós – pequenos – morremos um pouco.

Assim como todos nós, funcionários daquela empresa, morremos um pouco ao receber a notícia do nosso colega morto. Afinal, poderia ser qualquer um de nós, com pressa para chegar em casa para ver a mãe, o filho, a namorada… Ou para ir se divertir, ou fazer a prova da faculdade…

Infelizmente, em momentos assim, onde o silêncio do luto deveria prevalecer, ainda haverá alguém que ousará dizer que “o motoqueiro foi imprudente”, ou que somos manipulados pela mídia ou fanáticos por futebol. Mas os mais sensíveis entenderão que não se trata de futebol ou motocicletas. Trata-se de empatia. De se colocar no lugar do outro. Da mãe que perde o filho, do filho que perde a mãe. Do sonho – que poderia ser o nosso – que morre tao perto de ser realizado. De uma família inteira. De uma Chapecó inteira, que poderia muito bem ser a minha Itapevi, ou a sua cidade, seja ela qual for.

Coisas assim nos faz pensar, mais uma vez, sobre o que estaríamos fazendo aqui, já que uma hora tudo isso irá acabar, subitamente. Perguntas que não sabemos responder. Perguntas que apontam para Alguém maior que nós, o único que sabe responder coisas assim.

Nossos sentimentos ao rapaz que morreu ontem, no trevo da rodovia Castelo Branco. Nossos sentimentos às vitimas do acidente aéreo na Colômbia. E nossos sentimento à tantas outras famílias enlutadas, as quais nunca teremos notícias.

Que em momentos assim estes possam conhecer o consolo daquele Único capaz de consolar.

Às vezes, o diabo está nos olhos de quem vê


Estava lendo agora mesmo uma matéria muito interessante no site do projeto “Doutores da Alegria”, que mostra como o aplicativo Pokémon Go tem ajudado no tratamento de crianças enfermas. A matéria conta que em muitos casos, a recuperação da criança doente depende da sua disposição em sair do leito e andar, se movimentar. Mas, que graça haveria para uma criança em caminhar pelos corredores frios de um hospital sem graça? Ai entra todo o mundo de fantasia proposto pelo aplicativo, que com a orientação de profissionais da saúde e pais das crianças, tem incentivado os pequenos a se movimentarem atrás dos “bichinhos”, como a matéria diz. Outro ponto citado pela matéria é o fato da curiosidade pela busca dos Pokémons ter incentivado crianças com autismo a saírem de suas zonas de conforto e socializarem (quem conhece um pouco que seja sobre autismo, sabe o quão milagroso isso é).

Ta vendo? Muitas vezes, o diabo está nos olhos de quem vê. Para gente paranoica que vê monstros em todo lugar, a vida é um verdadeiro inferno. Mas para quem vê nos bichinhos de um aplicativo a chance perfeita para exercitar a caridade, tudo é oportunidade e bênção.

Acho que foi Jesus quem disse que se nossos olhos forem bons, todo o nosso corpo seria bom, não é? Então, a pergunta que fica é a seguinte: até que ponto essa nossa má compreensão do evangelho está nos deixando ranzinzas, paranoicos, esquizofrênicos? Será que ser crente é isso?

A outra observação é o próprio projeto Doutores da Alegria, que assim como muitos outros, até onde eu sei, não tem cunho religioso – ou seja, é realizada por “criaturas”, como gostamos de chamar quem “não pertence a nossa fé”. Gente do mundo realizando a obra de Deus enquanto os filhos de Deus… bem, onde estão os filhos de Deus? O que eles estão fazendo? Óbvio que ha muita gente cristã boa fazendo boas obras em silêncio por aí, mas esse texto não é para estes, mas para os cristãos que muito falam, muito criticam, muito julgam a tudo e a todos, mas tem poucas -ou nenhuma – obra para apresentar.

Não foi Jesus quem disse que a árvore seria conhecida pelos seus frutos? E não foi o Espírito Santo que inspirou o apóstolo Tiago a escrever que a fé sem obras é morta? Então, como explicar gente “ímpia” fazendo trabalho de cristãos enquanto cristãos fazem trabalho de… hipócritas?

É óbvio que para tudo se exige prudência. Ontem também li sobre um menino que teria caído em um rio e morrido afogado na procura por Pokémons. Mas então, que sejamos inteligentes, e que façamos análises inteligentes sobre os assuntos do dia a dia, e que peçamos o verdadeiro discernimento a Deus para parar de ver o diabo em tudo. Porque, se vemos o diabo em tudo, talvez o diabo esteja em nós mesmos, e somente nós não estamos vendo…

“Os não judeus (ou, aqueles que não conhecem a Deus, se contextualizarmos nos dias de hoje) não têm a lei( de Deus). Mas, quando fazem pela sua própria vontade o que a lei manda, eles são a sua própria lei, embora não tenham a lei. Eles mostram, pela sua maneira de agir, que têm a lei escrita no seu coração. A própria consciência deles mostra que isso é verdade, e os seus pensamentos, que às vezes os acusam e às vezes os defendem, também mostram isso. E, de acordo com o evangelho que eu anuncio, assim será naquele dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgará os pensamentos secretos de todas as pessoas.”
(Romanos 2:14-16 NTLH)

  • Link para a matéria dos “Doutores da Alegria” aqui.

O sexo gay em ‘Liberdade, liberdade’ e a nossa sodomia seletiva


A tal cena de sexo gay da novela da Globo, exibida nos últimos dias, mais uma vez deixaram evangélicos em estado de inquietação e revolta. Já comentei a respeito em um texto anterior por aqui, e prometi um texto mais elaborado, com referências bíblicas e tudo mais. E aqui está. O que me chama a atenção é a forma como apenas as cenas gays deixam cristãos revoltados com relação à novelas, enquanto as outras tramas, que exaltam todo o tipo de pecado, são engolidas por nós, crentes, sem cara feia.

Quero convidar você, leitor, a investir os próximos minutos em um breve passeio pela bíblia. Vamos verificar se apenas a cena de sexo gay é abominável, ou se todo o tipo de pecado é abominável aos olhos de Deus, e assim vamos tentar entender porque alguns pecados são mais abomináveis que outros, ao nossos olhos.

Para começar, quero convidar-te para um passeio por uma cidade não muito amigável, da qual certamente você já ouviu falar. Vamos para Sodoma?

SODOMA

“Aí o Senhor disse a Abraão:

— Há terríveis acusações contra Sodoma e Gomorra, e o pecado dos seus moradores é muito grave. Preciso descer até lá para ver se as acusações que tenho ouvido são verdadeiras ou não.” (Gênesis 18:20-21, NTLH)

Deus disse essas palavras a Abraão um dia antes de destruir as cidades de Sodoma e Gomorra por causa do seu pecado. Mas, qual era mesmo o pecado de Sodoma e Gomorra?

Aprendemos desde sempre que o pecado de Sodoma e Gomorra tinha a ver com sexo, e com sexo homossexual. E, de fato, essa definição não está errada. É o que podemos comprovar examinando melhor as escrituras. O capítulo 19 de Gênesis, onde há o desdobramento dessa história, nos mostra uma cena que comprova essa teoria. Deus enviou dois anjos a Sodoma, para resgatar a família de Ló, parente de Abraão, antes que as cidades fossem destruídas. Ao ler essa capítulo, vemos uma cena chocante:

“Mas, antes que eles fossem dormir, todos os homens de Sodoma, tanto os moços como os velhos, cercaram a casa. Eles chamaram Ló e perguntaram:

— Onde estão os homens que entraram na sua casa esta noite? Traga-os aqui fora para nós, pois queremos ter relações com eles.” (Gênesis 19:4-5, NTLH)

A Bíblia relata aqui que todos (isso mesmo: todos!) os homens daquela cidade – tanto jovens como velhos -, ao saber da presença de dois homens estrangeiros (que na verdade eram anjos) na casa de Ló, cercaram a aquela casa na intenção de estuprá-los.

Em desespero, Ló chega a oferecer as suas filhas aos homens, na tentativa de proteger os anjos. Mas aqueles homens maus recusam: eles queriam os dois visitantes, homens, estrangeiros, e ainda ameaçaram fazer com Ló pior do que fariam com os anjos. Mas as filhas de Ló não precisariam ser sacrificadas e Ló não pagaria com seu próprio corpo, pois eram os anjos que estavam ali para proteger Ló, e não o contrário:

Ló saiu para falar com os homens. Ele fechou bem a porta e disse:

— Por favor, meus amigos, não cometam esse crime! Prestem atenção! Tenho duas filhas que ainda são virgens. Vou trazê-las aqui fora para vocês. Façam com elas o que quiserem. Porém não façam nada com esses homens, pois são meus hóspedes, e eu tenho o dever de protegê-los.

Mas eles responderam:

— Saia da nossa frente!

E diziam uns aos outros:

— Esse homem é estrangeiro e quer mandar em nós!

Depois, virando-se para Ló, disseram:

— Pois agora vamos fazer com você pior ainda do que íamos fazer com os seus hóspedes.

Os homens de Sodoma se atiraram contra Ló e chegaram perto da porta para arrombá-la. Mas os visitantes pegaram Ló, e o puxaram para dentro da casa, e fecharam a porta. Em seguida eles fizeram que os homens, tanto os moços como os velhos, que estavam do lado de fora, ficassem cegos; e assim não conseguiram encontrar a porta.

(Gênesis 19:6-11, NTLH)

O relato acima nos deixa bem claro como o sexo imoral fazia parte da cultura imoral dos Sodomitas. E talvez, até mesmo o incesto das filhas de Ló, que embebedaram o próprio pai para ter relações com ele (Gn 20), nos mostram duas moças que cresceram sob influência de uma cultura tão imoral que não viram grandes problemas em fazer o que fizeram.

ABOMINAÇÃO É

Séculos depois, Deus deu a Lei a Moisés, onde todas essas formas de sexo, consideradas imorais por Deus, ficaram expressamente proibidas. Levítico 18 cuida exclusivamente disso: relações sexuais ilícitas. E entre elas está a relação “homem com homem”, além das relações entre parentes em primeiro grau. A tradicional versão da Bíblia Almeida Revista e Corrigida completa com o termo “abominação é”:

“Com varão te não deitarás, como se fosse mulher: abominação é.” (Levitico 18:22, ARC)

Mas, será que apenas “deitar homem com homem” é considerado abominação perante Deus segundo a Bíblia? Uma busca apenas, nessa mesma tradução, e vemos que outras coisas também são abomináveis para o Senhor.

Então, edificou Salomão um alto a Quemos, a abominação dos moabitas, sobre o monte que está diante de Jerusalém, e a Moloque, a abominação dos filhos de Amom. (1 Reis 11:7, ARC)

As imagens de escultura de seus deuses queimarás a fogo; a prata e o ouro que estão sobre elas não cobiçarás, nem os tomarás para ti, para que te não enlaces neles; pois abominação são ao Senhor, teu Deus. (Deuteronômio 7:25, ARC)

E Moisés disse: Não convém que façamos assim, porque sacrificaríamos ao Senhor, nosso Deus, a abominação dos egípcios; eis que, se sacrificássemos a abominação dos egípcios perante os seus olhos, não nos apedrejariam eles? (Êxodo 8:26, ARC)

Nos versos acima, a palavra abominação tem forte relação com idolatria, como podemos ver. Já no trecho abaixo, de Ezequiel, abominação tem a ver com sexo imoral, mesmo:

“Um cometeu abominação com a mulher do seu próximo, outro contaminou abominavelmente a sua nora, e outro humilhou no meio de ti a sua irmã, filha de seu pai.” (Ezequiel 22:11, ARC)

Já em Provérbios, abominação está sempre relacionada com injustiça:

“Porque o perverso é abominação para o Senhor, mas com os sinceros está o seu segredo.” (Provérbios 3:32, ARC)

“Balança enganosa é abominação para o Senhor, mas o peso justo é o seu prazer.” (Provérbios 11:1, ARC)

“Abominação é para o Senhor todo altivo de coração; ainda que ele junte mão à mão, não ficará impune.” (Provérbios 16:5, ARC)

Ou seja, a palavra abominação está sempre relacionada com pecado, seja ele sexual ou não. Até porque, pecado nunca vem sozinho.

PECADO NUNCA VEM SOZINHO

Que pecado cometeram Adão e Eva, no Éden? Eles mataram? Roubaram? Cometeram sexo imoral? Nada disso. Eles desobedeceram a Deus. E por causa da desobediência o pecado entrou no mundo. A palavra “pecado”, nesse contexto, pode ser entendida em sua forma ampla. É como se “pecado” fosse um pacote que contém todos os pecados. Ou seja, pela desobediência de Adão e Eva, o pecado, ou todos os pecados entraram no mundo.

Alguns trechos bíblicos nos mostram aquilo que já desconfiamos: pecado nunca vem sozinho. Um pecado vem acompanhado de outro. E não dá pra cometer um pecado sem ter que cometer outro. Quem trai a esposa, também mente para ela e cobiça a amante, não é? E a cobiça, assim como a inveja, também estão presentes no coração do ladrão, não é verdade?

Em Romanos 1, por exemplo, o apóstolo Paulo comenta o que aconteceu com a humanidade após ter escolhido a desobediência. Esse trecho cita a homossexualidade, mas apenas com mais um dos efeitos de uma humanidade sem Deus:

“Por causa das coisas que essas pessoas fazem, Deus as entregou a paixões vergonhosas. Pois até as mulheres trocam as relações naturais pelas que são contra a natureza. E também os homens deixam as relações naturais com as mulheres e se queimam de paixão uns pelos outros. Homens têm relações vergonhosas uns com os outros e por isso recebem em si mesmos o castigo que merecem por causa dos seus erros.” (Romanos 1:25-26, NTLH)

Mas, como dissemos acima, pecado nunca vem sozinho. Veja que a homossexualidade, tão frisada por nós, crentes, é apenas mais um item em uma lista imensa de coisas abomináveis:

“E, como não querem saber do verdadeiro conhecimento a respeito de Deus, ele entregou os seres humanos aos seus maus pensamentos, de modo que eles fazem o que não devem.Estão cheios de todo tipo de perversidade, maldade, ganância, vícios, ciúmes, crimes de morte, brigas, mentiras e malícia. Caluniam e falam mal uns dos outros. Têm ódio de Deus e são atrevidos, orgulhosos e vaidosos. Inventam maneiras de fazer o mal, desobedecem aos pais, são imorais, não cumprem a palavra, não têm amor por ninguém e não têm pena dos outros.” (Romanos 1:28-31, NTLH)

E, aqui, está um problema visível no caso da novela: a cena de homossexualidade fere nossos olhos (até aí tudo bem), mas e as cenas que exaltam “todo tipo de perversidade, maldade, ganância, vícios, ciúmes, crimes de morte, brigas, mentiras e malícia”? Não são abominação, também? Não é o que os versos de Provérbios acima dizem, não é?Consumimos essa cultura insana em todas as novelas, filmes, séries, livros que assistimos. É incoerente e hipócrita da nossa parte virar o rosto pro sexo gay de “Liberdade, Liberdade” e aguardar com anseio o próximo episódio de Game of Thrones, ou torcer para o bandido em “Velozes e Furiosos”.

SODOMIA NÃO É SÓ SEXO IMORAL

Quem acha que o pecado de Sodoma foi só sexo, precisa ler as palavras do profeta Ezequiel:

Sodoma e as suas filhas eram orgulhosas porque tinham muita comida e viviam no conforto, sem fazer nada; porém não cuidaram dos pobres e dos necessitados. Elas foram orgulhosas e teimosas e fizeram as coisas que eu detesto; por isso, eu as destruí, como você sabe muito bem. (Ezequiel 16:49-50, NTLH)

Sodomia é sexo imoral, mas também é a falta de atendimento ao pobre, ao carente, ao necessitado; o político que diz que pensa no “social” mas desvia a verba da merenda, o mercado que propõe e a população de alimenta o consumismo, até mesmo a igreja que dá carros importados e viagens aos seus líderes enquanto mendigos morrem no frio. O que me faz pensar que, talvez, todos nós sejamos um pouco sodômicos, não é? Triste.

A verdade é que o pecado de Sodoma não era só sexo, mas o sexo imoral fazia parte do pecado de uma cidade de pessoas com o coração sujo, que produzia todo o tipo de pecado. Esse trecho só confirmam as palavras de Paulo aos Romanos, não é?

MÍDIA, OU MELHOR, CULTURA SODOMITA

Nossa cultura, nossa industria cultural é plenamente sodomita. Não apenas no que diz respeito ao sexo homossexual, mas no sentido amplo do conceito. Nossa indústria cultural – filmes, séries, livros, novelas, humor, musica, etc -, para usar as palavras de Paulo em Romanos 1, “estão cheios de todo tipo de perversidade, maldade, ganância, vícios, ciúmes, crimes de morte, brigas, mentiras e malícia. Caluniam e falam mal uns dos outros. Têm ódio de Deus e são atrevidos, orgulhosos e vaidosos. Inventam maneiras de fazer o mal, desobedecem aos pais, são imorais, não cumprem a palavra, não têm amor por ninguém e não têm pena dos outros”.

Ok, para quem me conhece ou acompanha o blog, sabe que também sou escritor amador, e sei que não dá pra escrever uma história sem o “vilão”, e não tem como escrever um vilão que não possua as “qualidades” citadas acima por Paulo. Mas há diferenças entre você falar sobre maldade e você romantizar ou banalizar a maldade. O que a industria cultural de hoje faz é propagar a maldade pela maldade, de maneira gratuita. Ou pior: como instrumento de doutrinação ideológica, como inclusive acontece no caso de “Liberdade, liberdade”, na minha opinião.

E é diante dessa mídia que nos prostramos diariamente. É esta mídia que consumimos, seja na Globo, Netflix ou via Torrent. E estamos tão hipnotizados que é necessário uma cena onde dois homens transam para nos despertar. Mas, estamos tão hipnotizados que logo após o fim dessa cena, voltamos ao nosso estado de inércia, consumindo toda a lama em volta, sem reclamar.

É por isso que soa tão hipócrita encher as redes sociais de tanta reclamação (que soa mais como “mimimi”) à respeito de cenas assim. Quer dizer que quando não há cenas gays, não nos revoltamos? Quer dizer que adultério entre homem e mulher pode? Quer dizer que roubo, assassinato pode? Quer dizer que um apresentador de telejornal fazer piada entre um um caso de estupro e outro de crime passional pode? Quer dizer que os estupros de Game of Thrones pode?

PECADOS MAIORES QUE OS DE SODOMA

A própria Bíblia diz, em pelo menos dois pontos, que Israel era mais pecadora que Sodoma. O primeiro a dizer isso foi o profeta Ezequiel (aliás, recomenda-se a leitura do capítulo 16 inteiro):

“Jerusalém, juro pela minha vida — diz o Senhor Deus — que a sua irmã Sodoma e os povoados que ficam ao seu redor nunca pecaram tanto quanto você e os seus povoados.” (Ezequiel 16:48, NTLH)

Depois, foi o próprio Jesus, que falou sobre Cafarnaum:

E você, cidade de Cafarnaum, acha que vai subir até o céu? Pois será jogada ao inferno! Porque, se os milagres que foram feitos aí tivessem sido feitos na cidade de Sodoma, ela existiria até hoje. Pois eu afirmo a vocês que, no Dia do Juízo, Deus terá mais pena de Sodoma do que de você, Cafarnaum. (Mateus 11:23-24, NTLH)

Esses trechos me faz refletir nas vezes que apontei a sodomia do mundo sem perceber a gravidade da sodomia que há dentro de mim, ou dos meus. Coisa para refletir.

A ESPOSA DE LÓ

Quem não conhece a história da mulher de Ló:

“E aconteceu que a mulher de Ló olhou para trás e virou uma estátua de sal.” (Gênesis 19:26, NTLH)

Quando leio esse trecho, me parece que a esposa de Ló, quando olhava para trás, estava olhando muito mais para o estilo de vida de Sodoma do que para a destruição “cinematográfica” da cidade. O que me faz lembrar de nós mesmos, feito bobos, contemplando toda a sodomia, ou seja, todo o pecado desse mundo, sentado em nossos sofás, comendo pipoca, e concordando com tudo, e às vezes se chocando com algumas cenas que não estamos tão acostumados. Será que não estamos com olhos demais para o mundo? Será que não estamos o amando demais? O quanto do nosso coração esse mundo perverso ainda detém? Essa é uma pergunta que todos nós precisamos fazer a nós mesmos, e refletir. Inclusive eu.

Não é que não podemos mais assistir nada. Nós temos um filtro, capaz analisar o que convém ou não. O Evangelho não é baseado em leis, mas sim no raciocínio de uma mente sã, transformada conforme Romanos 12:2. Em Cristo, já somos capazes de por em prática o conselho de Paulo, “observar de tudo, reter o que é bom (Tessalonicenses 5:21)”.

O quanto daquilo que você assiste, ouve, consome, te edifica? O quanto ele cabe nas palavras de Paulo aos Filipenses? Talvez esse seja um teste que todos nós devemos fazer com tudo aquilo que estamos consumindo.

“Por último, meus irmãos, encham a mente de vocês com tudo o que é bom e merece elogios, isto é, tudo o que é verdadeiro, digno, correto, puro, agradável e decente. Ponham em prática o que vocês receberam e aprenderam de mim, tanto com as minhas palavras como com as minhas ações. E o Deus que nos dá a paz estará com vocês.” (Filipenses 4:8-9, NTLH)