No ônibus


Caso 1: Tarde da noite, o ônibus que nos leva do trabalho de volta pra casa finalmente passou. E como sempre, lotou, mas consegui sentar, pelo menos. Ao meu lado, um haitiano. Não conversamos nada, fiquei o tempo todo no celular. Enfim, este não é o foco do texto. O que importa é que quando o ônibus chegou num determinado ponto, o rapaz haitiano desceu. E então pude ouvir o diálogo entre dois homens que estavam em pé naquele ônibus, próximo ao nosso banco.

“Senta aí” – disse um, apontando para o lugar onde haitiano estava sentado, ao meu lado.

“Não…  Não quero não. Senta você.”

“Eu não. Senta você. Eu estou cansado. Trabalho o dia todo sentado. Pode sentar.”

“Não… Não quero não…”

E a lenga-lenga persistiu por mais um tempo. Eu, no meu celular, nem percebi quando a conversa terminou. Mas fiquei pasmo com o que vi minutos depois: os dois homens sentados num par de bancos um pouco a frente do meu.

Ué? Eles não estavam cansados de ficar sentados o dia todo? Ou é justamente aquilo que eu estou pensando?

Caso 2: Eu e minha esposa, voltando da faculdade, esperando o ônibus. De repente chega um cadeirante no ponto. Não sei se acontece com você, mas sempre que vejo um, me vem a cabeça o quanto essas pessoas sofrem em nossas cidades com acessibilidade mínima. Que bom que, pelo menos por aqui, na zona oeste da Grande SP, quase todos os ônibus já tem elevadores para cadeirantes, mas não são raros os casos em que a aparelhagem não funciona, ou pior: o cadeirante contribuinte tem que encarar a má vontade do funcionário da empresa de ônibus como se estivesse pedindo um favor, e não usufruindo do seu direito. 

Não demorou muito e o ônibus chegou. Uma fila deles, aliás, inclusive o que o cadeirante ia utilizar. O cobrador desce do coletivo para atender o cadeirante, é o motorista, não se sabe porquê, começa a buzinar o ônibus feito louco. 

Mas, pera: Ele está em uma parada, compartilhando o espaço com mais meia dúzia de ônibus. Não precisa buzinar. O ônibus a frente dele, tão logo pegue os passageiros, vai dar partida e ir embora, não é?

Bem, o ônibus logo atrás, lá no fim da fila, era o nosso. Eu e minha esposa subimos, e comentei com ela se o motivo do nervosismo repentino do motorista era aquele mesmo que a gente está pensando…

A gente crítica governo, crítica política, crítica político. A gente se diz religioso, se diz cristão. A gente se diz educado, cidadão, civilizado. Mas cenas como as descritas acima acontecem todos os dias. E talvez nós mesmos já tenhamos participado, seja como vítimas ou culpados disso tudo.

Parece que a gente esquece que qualquer dia desses (Deus nos livre!) um desses ônibus pode passar em cima de nossas pernas, e seremos nós os cadeirantes dá vez.

E nos carregamos, orgulhosos, a fama de pais acolhedor. Mas amamos acolher turista americano e europeu, que na verdade não precisa ser acolhido. Enquanto o pobre coitado, que vem refugiado da guerra ou de um desastre natural é tratado como lixo, como terrorista, sob o argumento mesquinho de que “vão roubar nossos empregos”. Odiamos quando somos tratados assim lá nos States, mas fazemos exatamente igual aqui. Dá pra entender?

Até a lei de Moisés, dada por Deus, prévia que deveríamos tratar o estrangeiro com humanidade. 

Trago esses exemplo aqui, num espaço “cristão”, para que os cristãos reflitam: será que nós estamos repetindo gestos assim?  Será que na correria do dia a dia estamos esquecendo de sermos humanos, como Deus nos criou? Será que estamos esquecendo de praticar o amor de Cristo? Porque seria crente na igreja, sem os confrontamentos da vida é muito fácil. Mas é nessas horas, no meio da rua, é que damos o nosso testemunho.

Obvio que ninguém aqui é santo. Muito menos o que vos escreve. Mas da mesma forma que isso me serviu de alerta, eu espero que te sirva também.

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Reflexões em uma manhã chuvosa


Nesta manhã chuvosa, acabei de ver algo no mínimo curioso: um guincho da Porto Seguro sendo guinchado por outro guincho da Porto Seguro. Ver um guincho sendo guinchado me fez lembrar que médicos também adoecem, os psicólogos também frequentam o divã, os comediantes também se entristecem, os profetas também desfalecem na fé… Como Elias que depois de ver fogo descer dos céus, fugiu do inimigo e se escondeu, como qualquer um de nós. Na verdade, a história conta que até Jesus chorou…

Coisas assim me faz pensar que nós não somos infalíveis, vivemos de altos e baixos. Por trás de atitude, firmeza e determinação, sempre haverá dúvidas, incertezas e medos… Coisas assim me fazem pensar que muitas vezes a mão que você tanto espera ajuda está mais necessitada que você…

Coisas assim me fazem perguntar os porquês de sermos tão soberbos, se nenhum de nós somos infalíveis? E se o único que cremos ser O Infalível, se fez humilde a ponto de se deixar morrer em uma cruz ao lado de dois bandidos?

Fraquezas. Apesar de as escondermos como se fossem tesouros, elas são mais comuns do que parecem. E de fato são comuns a todos.

A fraqueza é o laçoque nos une, a régua que nos iguala.

Quanto tempo demorará até percebermos isto?

Enfim… Reflexões de uma manhã chuvosa…

Todas as coisas cooperaram… Até o império romano


TODAS AS COISAS COOPERAM, essa citação da epístola aos Romanos é uma verdade que podemos verificar no curso da história. A Israel do Velho Testamento, por exemplo: sempre envolvidas em guerras e turbulências, tendo seu povo frequentemente sendo levado como cativo. Israel era a nação criada não por revoltas, guerras ou emancipações, mas criada pelas mãos do próprio Deus, que fez brota-la milagrosamente do ventre da infértil Sara. Israel sempre foi protegida é amada por Deus porque ela era como o “útero” do qual nasceria o Salvador de todas as nações.

Mas como poderia nascer o Salvador em uma terra tão instável, tão cheia de turbulências?

Deus prometeu a Israel paz e prosperidade, desde que seu povo mantivesse obediência a Ele (Deuteronômio 28), mas ao longo da história vemos que obediência ao seu Deus nunca foi o forte de Israel…

Mas quando Deus promete algo, Ele mesmo providência o cumprimento. E é o que podemos ver ao estudar um pouco de história.

O ano de 27 a.C. foi marcado pela ascensão do Império Romano, que a partir de Roma, dominaria nos anos posteriores grande parte da Europa, Oriente Médio e inclusive regiões do norte da África. Entre todos esses territórios, que hoje englobaria 46 países, estava a nação de Israel, que mais uma vez se via rendida à poderes inimigos, mas dessa vez de uma maneira diferente. Os romanos, diferente das outras nações que dominaram Israel, não estabeleceu guerras e nem levou israelitas cativos. Pelo contrário, conter guerras territoriais entre as regiões dominadas era uma estratégia de governo dos romanos. Esse período de relativa paz, não apenas em Israel, mas em todo o império romano ficou conhecido como “Pax Romana”.

E é aqui que é respondida a nossa questão lá no início do texto. Se cremos que tudo nesta terra acontece sob a permissão de Deus, então é fácil ver como Deus se usou das mãos de ímpios para garantir a paz necessária na região de Israel na época do nascimento de Jesus. Durante o período que o filho de Deus esteve neste mundo, Israel não esteve envolvida em nenhuma guerra.

Mas a mesma filosofia de Pax Romana que garantiu a paz em Israel no nascimento de Jesus foi a mesma responsável histórica pela crucificação de Jesus, afinal o Rei dos Judeus era tido pelo império como um potencial revolucionário que poderia, aos olhos de Roma, reunir o povo Israelita para uma revolta contra o poder dominante, o que ia de encontro a tal da Pax Romana.

Então a Pax Romana não foi tão boa assim?

Espere. Temos que nos lembrar que era necessário que o filho de Deus morresse pela nossa remissão. Isso ja estava definido desde a fundação do mundo, e estava muito além das vontades de qualquer império terreno. Este episódio foi, mais uma vez, Deus se usando das mãos de ímpios para cumprir o seu santo querer.

O que podemos aprender olhando para história é que o que Deus determina, determinado está. E quando chega o tempo de Deus, Ele mesmo providencia todas as coisas. Quantas vezes olhamos para as maravilhosas promessas de Deus e nos alegramos, mas a alegria vai embora instantaneamente quando olhamos para a nossa vida atual cheia de provas, onde nada parece se encaixar. E difícil relacionar desemprego, enfermidades, tristezas, decepções, falências, depressões, humilhações, solidão e mais um monte de provações ao período de bençãos prometidas por Deus, seja na terra como nos céus. Imagino que muitos naquela época também olhava para o estado de ruína, vergonha e desobediência de Israel e davam a promessa do Redentor por perdida. Mas Deus é fiel cumpridor de suas promessas, e Ele mesmo faz com que tudo se encaixe, organizando todas as situações para que a promessa Dele se cumpra, ainda que Ele tenha que seu usar das mãos de ímpios.

O nome disso? Graça. É a Graça de Deus, que não depende da nossa condição. É o dom dado diretamente por Deus, e não vem de nós. Essa mesma Graça que nos sustenta em terra continuará nos guardando, e fazendo tudo cooperar, até o dia em que essa mesma Graça nos redimirá de uma vez por todas, e nos unirá finalmente com Cristo.

Este vídeo exemplifica as palavras de Jesus em Mateus 18


O principal destaque do noticiário esportivo de ontem (10/07) certamente foi a vitória da seleção de Portugal sobre a França, que deu o título inédito da Eurocopa aos lusitanos. Mas o vídeo abaixo, de tão singelo, é a imagem mais marcante do evento.

Depois da partida, um torcedor francês chorando a derrota do seu time nas ruas de Paris quando, surpreendentemente, é consolado por uma criança portuguesa, que lhe dá um abraço.

Enquanto muitos adultos usam o futebol – e tudo a sua volta – como desculpa para externar sua selvageria interior, uma criança inocente não vê diferenças entre cores de camisas e, inocentemente, entende que o outro também é humano, e vai lá consolar, não por causa de um dever moral, ideológico ou religioso, mas numa atitude pura, natural.

São cenas assim que nos faz entender o que Jesus disse: se não nos tornarmos como crianças, não veremos a Deus.

 

“Jesus chamou uma criança, colocou-a na frente deles e disse:

— Eu afirmo a vocês que isto é verdade: se vocês não mudarem de vida e não ficarem iguais às crianças, nunca entrarão no Reino do Céu.”

(Mateus 18:2-3)

#ProudToBe: O orgulho de ser ___________


Eu entendo qual é a do orgulho. Normalmente, a forma como somos mal tratados desperta em nós essa necessidade de nos orgulhamos de quem ou do que somos, como se fosse um gesto de autoafirmação. Normalmente, o sentimento de orgulho nacionalista nasce em tempos de guerra e opressão. E ouve-se falar muito mais em “orgulho de ser negro” do que em “orgulho de ser branco” justamente por causa da multidão de injustiças que os negros sofreram no curso da História.

O orgulho é praticamente um mecanismo de defesa, necessário em tempos que o grupo que participamos, seja ele qual for, sofre algum tipo de ataque injusto.

Mas o orgulho tambem tem o seu lado sombrio. E como tem…
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Onde está o teu Deus?


ONDE ESTÁ O TEU DEUS? Me diga. Onde ele está? Nós costumamos ouvir essa questão como um questionamento sobre a “eficiência” de Deus em momentos de prova.

“As minhas lágrimas servem-me de mantimento de dia e de noite, enquanto me dizem constantemente: Onde está o teu Deus?”
(Salmos 42:3)

Mas, hoje, quero fazer essa pergunta com outra conotação: “ONDE ESTÁ O TEU DEUS?”. Para onde você aponta quando pensa em “Deus”. A quem você tem por “deus”. Quem é o teu deus?

Perguntando assim, creio que quase todos aqui – em um país cristão – diriam que Deus é o seu deus. Criador, formador dos Céus e da terra, que nos deu seu filho Jesus…

Mas eu continuo perguntando: onde está o teu deus? Em quem você tem buscado provisão? A quem você tem adorado? Diante de quem, ou do que você tem se prostrado em promessa de conseguir algo? Onde tem estado o teu consolo, o teu alívio?

Nós, evangélicos, costumamos criticar outras religiões por que eles se colocam diante de imagens… Mas, talvez essa não seja o tipo de idolatria mais recorrente nos dias de hoje. Muitos tem se colocado, e adorado a sua própria imagem. Outros se prostram diante dos esquemas sujos desse mundo na espera de conseguir algo. Outros buscam alívio nos vícios. Outros, ainda, acreditando serem livres, se tornam escravos de ideologias, filosofias, do consumismo. Tem até mesmo aqueles que idolatram uma religião, uma igreja, mas estão com o coração longe de Deus.

E as questões acima cabem até mesmo para aqueles que dizem não ter ou não acreditar em um deus. O que me faz pensar que talvez todos tenham um deus, ainda que neguem ter um.

Onde está o teu Deus? Essa é a pergunta. Essa é a reflexão que te convido a fazer hoje. Será que o “trono do teu coração” está ocupado apenas por um Deus, o verdadeiro? Ou será que a ansiedade pelo conquistar já está brigando para tomar o teu coração?

Reflexões assim tem me feito escrever. E o resultado disso está tomando forma, no livro que tem justamente este nome: “Onde está o teu Deus”. Para quem quiser ler e refletir, ele está lá no Wattpad, neste link (http://bit.ly/OndeEstaOTeuDeus)

E pense nisso: onde está o teu Deus?

 

O cristão eleitoral


ANDANDO PELAS RUAS DA CIDADE HOJE, me chama a atenção a quantidade de cartazes de pré-candidatos às próximas eleições com dizeres “cristãos”, do tipo “Feliz Páscoa”, “Que Jesus ressuscite em cada coração” e etc. Engraçado que provavelmente serão esses mesmos políticos de coração bondoso os envolvidos nos escândalos de corrupção na próxima gestão.

Estava pensando aqui como é fácil ser (ou se fazer de) cristão em um país culturalmente cristão como o nosso. Não vejo ninguém arriscando cartazes em uma dia de comemoração espírita ou umbandista (se é que esses dias existem, não faço ideia, rs). Óbvio! Que candidato quer ser taxado como “macumbeiro” diante do seu eleitorado cristão?

Enfim, no Brasil, ser cristão virou questão de status.

Enquanto isso, paro diante de uma banca de jornal, e entre as manchetes: “ATENTADO MATA 65 CRISTÃOS NO PAQUISTÃO”.

Ser cristão em um país cristão é tão fácil quanto encher um balde cheio d’agua. Difícil é ser a gota d’agua solitária no deserto. Mas não estou falando sobre pessoas que de fato consideram a doutrina de Cristo e a tentam seguir em retidão, amando a Deus e ao próximo, não. Falo daqueles que querem parecer cristão diante do público. Há 2 mil anos, Jesus já falava que as orações devem ser feitas no quarto, de portas trancadas, sem o som das trombetas que anunciam uma falsa piedade. A cada cartaz político que encontro nas ruas, eu vejo como esse ensinamento de Jesus é perfeito.

Enfim, duas coisas que entendo diante disso tudo: 1) Agora faz todo o sentido aquele ensinamento de “não usar o nome de Deus em vão”; e 2) É fácil ser cristão diante do público e das vantagens que isso trás. Quero ver ser cristão no quarto escuro, secreto. Ou então, no Paquistão.

Coisas para refletir.