HISTÓRIA 1: Aconteceu ontem, no meu trabalho. Não sei bem quem era, nunca o vi. Aliás, quando você trabalha no centro logístico de uma das maiores redes de varejo do Brasil, que funciona 24 horas por dia e 7 dias por semana, tendo mais de mil colegas de trabalho, fica difícil conhecer cada um deles. Tudo o que eu sei é que era um rapaz do primeiro turno. Não posso garantir a veracidade dos fatos, quero dizer, não posso pontuar com fidelidade, passo a passo, tudo o que aconteceu, mas teria sido assim: ele, na fila da lojinha de conveniência que há la na firma, teria decidido desistir da compra por estar com pressa. Assim, saiu com a moto, e à 3 minutos dali, em um dos acessos à rodovia Castelo Branco, teria se envolvido em um acidente fatal, sendo atropelado por um caminhão.

HISTÓRIA 2: Esta, bem mais famosa, pois já toma todos os noticiários do mundo, porém não menos triste. Um time de futebol que ascendia no cenário nacional e internacional. Jogadores jovens que viviam a expectativa de disputar um título internacional. Um time, que por sua história, virou uma espécie de “xodó” entre os que acompanham futebol. Talvez porque representa o pequeno que pode vencer o grande, e faz viver em nós a velha, mas viva história do pequeno Davi e sua improvável vitória sobre o gigante Golias. Certamente porque de certa forma realiza o desejo de todos nós, que nos sentimos tão pequenos diante de todas as dificuldades do mundo. Era um pequeno que vencia os grandes, e nos fazia lembrar que pequenos também tem chances de vencer os grandes. Então, quando vimos as noticias, quando vimos o pequeno abatido, morto e ferido entre os destroços daquele avião, todos nós – pequenos – morremos um pouco.

Assim como todos nós, funcionários daquela empresa, morremos um pouco ao receber a notícia do nosso colega morto. Afinal, poderia ser qualquer um de nós, com pressa para chegar em casa para ver a mãe, o filho, a namorada… Ou para ir se divertir, ou fazer a prova da faculdade…

Infelizmente, em momentos assim, onde o silêncio do luto deveria prevalecer, ainda haverá alguém que ousará dizer que “o motoqueiro foi imprudente”, ou que somos manipulados pela mídia ou fanáticos por futebol. Mas os mais sensíveis entenderão que não se trata de futebol ou motocicletas. Trata-se de empatia. De se colocar no lugar do outro. Da mãe que perde o filho, do filho que perde a mãe. Do sonho – que poderia ser o nosso – que morre tao perto de ser realizado. De uma família inteira. De uma Chapecó inteira, que poderia muito bem ser a minha Itapevi, ou a sua cidade, seja ela qual for.

Coisas assim nos faz pensar, mais uma vez, sobre o que estaríamos fazendo aqui, já que uma hora tudo isso irá acabar, subitamente. Perguntas que não sabemos responder. Perguntas que apontam para Alguém maior que nós, o único que sabe responder coisas assim.

Nossos sentimentos ao rapaz que morreu ontem, no trevo da rodovia Castelo Branco. Nossos sentimentos às vitimas do acidente aéreo na Colômbia. E nossos sentimento à tantas outras famílias enlutadas, as quais nunca teremos notícias.

Que em momentos assim estes possam conhecer o consolo daquele Único capaz de consolar.

Anúncios