“A letra mata e o Espírito vivifica” – #TextãoPolemico 1

Este é o argumento principal que costumamos ouvir quando o assunto é estudo bíblico. Justifica-se uma contraposição entre a “sabedoria de Deus” e a “sabedoria humana”. Muitos dizem que os mistérios de Deus são revelados.

“SOLA SCRIPTURA”

Termo que ficou famoso em tempos de reforma protestante, tempos em que gracas a impressora de Gutemberg, a bíblia passou a ser acessível e a leitura incentivada. Graças a essa movimento, a igreja católica sofreu uma de suas maiores crises, e nunca mais conseguiu recuperar seu peso político. Este termo voltou à evidência com o movimento Reformado, predominantemente presbiteriano, que ganhou muita evidência nos últimos anos. Uma das principais críticas deste movimento ao movimento pentecostal – predominante na igreja brasileira – é justamente a supervalorização das experiências “místicas” (sonhos, visões, profecias) em detrimento ao estudo aprofundado da bíblia.

Diante deste cenário, temos um dos principais debates da igreja brasileira atual: de um lado aqueles que supervalorizam o estudo bíblico, e do outro aquele que supervalorizam as experiências espirituais.

Se você está lendo esse texto esperando que eu diga quem está certo, esqueça. Afinal, quem sou eu para tal? Estamos aqui apenas para analisar alguns pontos.

MAS, A LETRA MATA MESMO?

A verdade é que o jargão “a letra mata” é muito mal empregado em nossas igrejas. É usado totalmente fora de contexto. Não basta apenas citar um verso da bíblia sem saber em que contexto ele foi dito. Esta citação, por exemplo, foi feita por Paulo, na sua segunda carta aos Coríntios, capítulo 3, verso 6. Mas este verso é apenas um recorte de uma frase que começa no verso 4:

“E é por Cristo que temos tal confiança em Deus; não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus, o qual nos fez também capazes de ser ministros dum Novo Testamento, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, e o Espírito vivifica.”(2 Coríntios 3:4-6 ARC)

Ao ler a segunda carta aos Coríntios completa, vemos um Paulo questionado, defendendo a sua autoridade ministerial. Provavelmente outros líderes religiosos tentavam introduzir doutrinas naquela comunidade, questionavam não apenas a doutrina de Paulo, mas a sua autoridade como apóstolo. Assim fica mais fácil entender os versos acima, onde Paulo afirma que foi autorizado por Cristo a pregar um novo testamento, que não era um testamento de letras, ou de leis, mas sim de Espírito, porque “a letra (ou “a lei”) mata, mas o Espírito vivifica.

Neste verso, Paulo não está incentivando ninguém a deixar de ler ou estudar a bíblia. O que ele está dizendo é que seu ministério não tem a ver com leis religiosas, mas sim com a atuação do Espírito Santo na vida de quem crê, e é isso que ele prega. Veja o que ele diz na frase anterior, que somos como cartas de Cristo, não escritas como em tábuas de pedra (referência à Lei de Moisés), mas escritas pelo Espírito de Deus, as “tábuas” que são os nossos corações:

“Vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens, porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós e escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração.” (2 Coríntios 3:2-3 ARC)

Aliás, que obra linda! A prova da legitimidade do apostolado de Paulo não era uma doutrina rígida e cheia de regras, mas sim a obra espiritual que Cristo estava fazendo na vida daquelas pessoas. E isto servia como uma verdadeira carta, que poderia ser lida e atestada por todos naquela que era uma das cidades mais promíscuas da Europa antiga.

UM POUCO SOBRE CORINTO

Corinto, na Grécia, tinha um dos mais importantes portos da Europa, e era passagem quase que obrigatória no trânsito de pessoas e mercadorias entre os continentes europeu e asiáticos. Cidade cosmopolita, gente de vários lugares do mundo, muito dinheiro, homens passando a noite naquela cidade, longe de suas mulheres… Ingredientes perfeitos para fazer de Corinto um dos principais centros de prostituição do mundo na época. E há de se ressaltar que até a religião grega, por meio de deusas como Afrodite, exaltava a cultura do sexo promíscuo. Ou seja, era em uma cidade assim que o Espírito Santo de Deus estava operando e transformando a vida de pessoas de tal forma que isso se fazia notório a todos.

É IMPORTANTE CONHECER A HISTÓRIA E CONTEXTOS BÍBLICOS

Quando você conhece a realidade do mundo onde as palavras de um determinado livro foi escrito, tudo ganha um colorido especial, e a Palavra de Deus passa a fazer ainda mais sentido, se torna ainda mais viva. Olha o exemplo de Corinto, por exemplo? Talvez por ser uma igreja tão “difícil”, com muitas pessoas que não foram “iniciadas” no judaísmo, e portanto nunca haviam tido qualquer contato com Deus, era tão importante os sinais dos dons do Espírito Santo. Na primeira carta aos Coríntios, Paulo fala muito sobre os dons, explicando o que é cada dom e advertindo a igreja a usa-los com sabedoria, para não escandalizar os estranhos à fé. E ainda lembra, em Coríntios 13, que sem o amor (caridade), nenhum desses dons tem validade.

Saber que Hebreus foi escrita à judeus perseguidos, ou que Filipenses foi escrito de dentro de uma cadeia faz toda a diferença. Assim como saber da vida de excessos de um Salomão, que em Provérbios e Eclesiastes questionou todo o estilo de vida que ele mesmo viveu. Para se inteirar disso, não é preciso ter nenhuma faculdade, basta ser um pouco curioso. O Google está aí para isso, e você pode até comparar fontes diferentes para ver o que faz mais sentido. Foi assim que pude conhecer um pouco da história de Corinto. Não sou nenhum especialista, talvez alguém aparece por aqui e me conteste nos comentários. Vou aceitar de coração aberto, como mais uma etapa no meu aprendizado.

MAS, POR OUTRO LADO, A CONTROVERSA TEOLOGIA…

O “Estudo de Deus” – tradução para “teologia”, no grego -, me parece algo estranho, à princípio. Posso até estar sendo ignorante aqui, mas como podemos estudar algo que é superior a nós? Não é como estudar história, corpo humano, animais e relações humanas. O que sabemos sobre Deus? O que poderemos saber, além daquilo que sabemos por fé, na bíblia? O máximo que alcançaremos é o estudo das religiões e outras correntes teológicas, que muitas das vezes são controversas até demais. Nada demais em estudar isso, na minha opinião, mas isso não faz de ninguém um super-crente, não é?

Não tem como desprezar a experiência espiritual do cristianismo. A bíblia fala do batismo no Espirito Santo em Atos 2, mostra como esses dons foram importantes em Corinto. Paulo, inclusive, relata nesta carta o episódio onde ele foi arrebatado. João Marcos recebeu a revelação do Apocalipse através de uma visão. E o próprio profeta Joel fala sobre a dispensação de dons espirituais nos últimos dias:

“E há de ser que, depois, derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões. E também sobre os servos e sobre as servas, naqueles dias, derramarei o meu Espírito. E mostrarei prodígios no céu e na terra, sangue, e fogo, e colunas de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor . E há de ser que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém haverá livramento, assim como o Senhor tem dito, e nos restantes que o Senhor chamar.” (Joel 2:28-32 ARC)

A GRAÇA DE DEUS

Somos salvos pela Graça de Deus. Não é pelo muito estudarmos, e nem pelo muito fervor espiritual. Somos salvos pela obra redentora de Jesus Cristo, que derramou seu próprio sangue e morreu, sem culpa, para cobrir os pecados que eram nossos, e não dele. Então, não faz sentido achar que aquele determinado irmão, formado, estudado, esta mais perto do céu. Imagina um Evangelho assim, como seria? Nada acessível, não é? Ou seja, como aquela irmã idosa, analfabeta no meio do sertão alcançará salvação sem ter lido Paul Washer ou Agostinho de Hipona? E, pelo outro lado, que profeta profetiza se não for de Deus? E, se ele profetiza de Deus, então Ele tem que assumir que o que vem dele não é propriamente dele, mas de Deus, e que Deus dispensa por graça a qualquer um. Seu dom espiritual não o faz mais crente ou mais digno que ninguém. Quando Jesus vier, todos os dons e ciências cessarão. Não é assim que diz 1 Coríntios 13?

TEMPERANÇA

Talvez a temperança seja a resposta para muitas das nossas perguntas na vida. Inclusive nesse caso. É inconcebível desprezar a leitura e o conhecimento bíblico em dias como os de hoje, quando o conhecimento está tão acessível. Engraçado: na igreja, a irmã da cozinha tem que saber cozinhar, o irmão que mexe na instalação elétrica tem que saber eletricidade, o irmão músico tem que saber música, mas o pregador… Não pode saber uma linha a mais da bíblia, ou então é chamado de carnal? Então vemos homens, na grande maioria das vezes usados por Deus, mas fazendo citações fora de contexto porque não sabe coisas básicas sobre a bíblia. Pior é a forma como a falta de leitura bíblica interfere negativamente no ambiente doutrinário da igreja, e a irmandade vai se cercando de “podismos” e “não-podismos” sem ao mesmo saber se, e onde isto ou aquilo está escrito. Pior ainda é ver em algumas igrejas como líderes inescrupulosos se aproveitam da ignorância do povo para vender uma teologia ao seu modo, muitas das vezes visando lucro.

Do outro lado, pessoas que estudam a bíblia e se acham senhores das letras. E desprezam quem não tem o mesmo conhecimento. E muitas das vezes bebem muito mais na fonte de teólogos do que na fonte de água viva que é Cristo. Blogs na internet parecem citar muitos mais Calvino, Spurgeon, Agostinho e até Nicodemos, e o nome de Jesus vai se perdendo entre tantos nomes de “especialistas” bíblicos. Páginas ditas “reformadas”, invés de compartilhar todo o vasto conhecimento da palavra que dizem ter, passam mais tempo ridicularizando quem não enxerga o cristianismo pelas mesmas lentes. Meses atrás, ao questionar um post de uma das principais destas páginas no Facebook, recebi como resposta de um “somos calvinistas”. Saudade dos tempos que os de Cristo eram cristãos…

AINDA QUE EU FALE A LÍNGUA DOS HOMENS…

… e a dos anjos. (E, adiciono aqui por minha parte) Ainda que tenha todo o fervor do Espírito e conheça todos os “mixtérios”, dons e revelações, ou ainda que saiba de cor todas as citações de Calvino, e tenha assistido todos os vídeos do Nicodemos… Sem o amor, amigos, de que adiantará? Ler a bíblia não faz de ninguém mais frio, e não ha nada de errado em experiências espirituais. Errado é se achar mais crente porque você tem mais dons, ou mais diplomas.

Também não acredito na ideia de que um pregador tem que ser formado em faculdades. E acredito sim que um homem de Deus pode subir a um púlpito sem ter preparado sermões, e ser usado por Deus. Mas também não tenho como desprezar quem passa a semana toda em comunhão, com todo o carinho e dedicação do mundo, lendo e relendo cada versículo que pretende pregar no domingo, para não passar nenhum ensinamento errado à sua igreja (óbvio, desde que esse estudo não seja para pregar um Evangelho deturpado).

Enfim, é necessário entender que Deus se manifesta de diversas formas. Na biblia, os bereianos, de escrituras abertas, conferiam se a pregação do pregador era verdadeira. Em Corínto, a manifestação dos dons foi um sinal e tanto para crentes que nem conheciam as escrituras, e precisavam de alguma experiência que aumentassem a sua fé. Deus se usa de tudo, afinal Ele é todo poderoso. E se eu puder escolher entre falar em línguas ou ser um conhecedor da bíblia…. Eu escolho os dois! 🙂

ATUALIZAÇÃO (04/07/2016): Me lembrei agora de uma canção do Leonardo Gonçalves que exemplifica essa dualidade entre entender e sentir a Palavra de Deus:

#TEXTÃOPOLEMICO” é uma coluna do blog que será atualizada todas as primeiras segundas do mês, sempre com um assunto “polêmico”. Concordem ou discordem, respeitosamente, nos comentários abaixo!”

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4 comentários em ““A letra mata e o Espírito vivifica” – #TextãoPolemico 1

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