Pregando na língua que eles entendem

 

“NAS CARTAS DELES HÁ ALGUMAS COISAS DIFÍCEIS DE ENTENDER”. Foi isso que o apóstolo Pedro escreveu sobre as cartas do seu colega Paulo em uma de suas epístolas (2 Pedro 3:16). Não sabemos ao certo sobre o que Pedro se referia, exatamente, mas outros trechos bíblicos, como Atos 10 e Galatas 2 – nos dá a entender que Pedro tinha, ou teve por algum tempo, certas dificuldades em entender que a salvação por Jesus não era apenas para judeus, mas para todas as nações da terra, assim como Deus já havia dito à Abraão. Enfim, é apenas uma suposição. Jamais saberemos a que Pedro se referia com essas palavras.

Mas essa passagem é interessante, pois mostra que até mesmo os apóstolos muito usados por Deus tinham dificuldades em entender certos pontos da Palavra revelada por Deus, assim como qualquer um de nós.

Outro ponto interessante também é imaginar sobre como Deus distribui dons em diversidade. Pedro, com suas dificuldades na fé, não foi o encarregado de cruzar fronteiras para pregar aos gentios. Essa missão – e esse dom – foi dada a Paulo, que apesar de ter sido um forte opositor à Graça, após sua conversão, rodou a Ásia e a Europa pregando Jesus Cristo para não-judeus.

A cada um dos pregadores, Deus deu um dom diferente, para que a mesma Mensagem fosse pregada a diferentes pessoas. Cada profeta, cada apóstolo tinha suas próprias características. As palavras de Jeremias e Isaías denunciavam injustiças, Davi pregava em forma de música e poesia, nos provérbios e nas reflexões de Salomão – como em Eclesiastes, por exemplo – havia muita sabedoria. Paulo conseguiu ouvintes até mesmo entre os filósofos gregos, e Noé conseguiu converter apenas a sua própria família, porque esse era a vontade de Deus. Até mesmo Jesus muitas vezes pregava em parábolas para que ninguém entendesse, e depois ele explicava, em particular, aos apóstolos.

A mensagem – seja qual for – é emitida por um emissor, e direcionada a um receptor. Mas para que o receptor capte a mensagem, é necessário que ela seja codificada corretamente. Em outras palavras, precisamos falar na língua que o receptor entende. Se eu tentar falar português com um alemão, provavelmente ele não entenderá, porque ele não reconhecerá o código em que a mensagem foi codificada, ou seja, a língua portuguesa.

E é por isso que, na igreja, há uma infinita diversidade de dons. É como se cada dom fosse um codificador da mesma Mensagem, que codifica o Evangelho de forma que diferentes receptores possam receber e compreender. Pedro tinha dificuldades em entender pontos da pregação de Paulo, mas alguns gregos, no alto de sua filosofia, compreenderam e receberam a pregação de Paulo, como está escrito em Atos 17. Talvez seja por isso que vemos tantos servos de Deus com diferentes dons de pregação: uns mais “mansos”, outros mais “fervorosos”, outros pregam mais doutrinas… O importante é que através do dom de cada um, a Mensagem alcance diferentes pessoas.

Por isso, creio que temos que entender as diversas formas que a Palavra de Deus se manifesta e é pregada mundo afora. Pedro tinha suas dificuldades, mas nunca invalidou as palavras de Paulo. E creio que assim também temos que fazer. Não temos que julgar o dom desse ou daquele pregador. E, sinceramente, não temos que julgar nem mesmo aquele pregador “louco” que fica gritando na praça com sua bíblia na mão. Nem mesmo aquele cantor evangélico. Você talvez tenha dificuldades para entender, por exemplo, um cantor cristão vestido como um roqueiro e cantando a palavra em forma de rock, mas temos que entender que foi assim que a Palavra chegou aos ouvidos e corações de muitas pessoas, que não compreenderiam a nossa mensagem “de terno e gravata”.

Tenho acompanhado trabalhos como o dos artistas brasileiros Marcos Almeida, Lorena Chaves e Os Arrais, que figuram numa espécie de “pós movimento gospel”, onde as canções primam pela poesia e sutileza, letras que muitas vezes se aproximam muito da MPB. Há algum tempo acompanho trabalhos de bandas como Resgate e Oficina G3, que com suas guitarras e seu rock ‘n’ roll, pregam a Palavra de maneira mais fiel e incisiva que muitos homens de púlpito por ai. Tenho acompanhado trabalhos como o do rapper californiano Propaganda, que com suas rimas, prega com o “código” que os jovens negros e latinos das periferias americanas conseguem entender. E os hinos avulsos? Tão usados em reuniões, tocatas e ajuntamentos pela irmandade da Congregação. Quantas pessoas foram introduzidas ao Evangelho através de uma roda de violão, irmãos cantando “Cana Trilhada”, regado a refrigerante e pão com carne-louca? E essas são apenas algumas poucas formas que Deus se usa para que sua Palavra chegue aos mais diversos corações.

É triste quando caímos na vala comum dos julgamentos e desmerecimentos. Deveríamos dar glórias a Deus por toda essa diversidade de dons que há no meio do seu povo, e orar constantemente para nenhum de nós venhamos distorcer a palavra de Deus, usando nosso dom como desculpa. Essa diversidade de dons é algo esplêndido, ainda mais em dias como hoje, onde os falsos profetas também se multiplicam. É um lindo sinal de que o Espírito Santo de Deus habita entre nós, apesar das nossas falhas.

Se não podemos julgar, então como reconhecer “quem é do bem” e “quem é do mal” nisso tudo?

Simples. Jesus disse que pelos frutos conheceríamos as árvores, não é? Então, que Deus nos de a sabedoria de reconhecer os frutos de cada uma dessas árvores. E que Ele desperte em nós um dom novo, para conseguirmos pregar sua Palavra de forma que muitos corações que ainda não entenderam, possam entender. Amém!

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4 comentários sobre “Pregando na língua que eles entendem

  1. Lindos ensinamentos Bruno!
    Por falar em dons, gosto muito da maneira que o irmão explica seus textos abordando notícias do cotidiano e tcharam, acaba com a reflexão do evangelho se encaixando perfeitamente com o conteúdo. Glória a Deus!

    Deus abençoe!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Ah, que maravilha! Aqui na minha cidade é tão raro encontrar alguém da CCB que pense assim hahaha’
    Linda sabedoria, que Jesus possa te abençoar!

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