Eu, fariseu: um conto que vai despertar o fariseu que existe dentro de todos nós

“Para mim, o culto de domingo é sagrado! Não entendo como pessoas simplesmente o despreza. Isso é uma falta de compromisso com Deus! Imagine só? Ficar em casa em pleno domingo? Se bem, ó… Que conheço irmãos é que ficam entretidos demais com a partida do Corinthians e acabam esquecendo de servir a Deus… Eu não sou assim, graças a Deus! Domingo, eu vou tomar banho é cedo! Ponho meu terno, pego minha bíblia de estudos e vou.

Aliás, não entendo como um crente que se preze não tem uma bíblia de estudos. Não tem interesse em saber mais sobre a palavra de Deus. Hoje em dia todo mundo quer saber demais das coisas do mundo, faz faculdade, passa horas na internet… Mas na hora de conhecer a Deus, ninguém quer. E eu tô falando de crente, viu! Eu não sou assim, graças a Deus! Eu me interesso e muito por tudo que se relaciona a palavra de Deus!

Bem, voltando ao assunto, assim que estava pronto, entrei no carro e fui. Não gosto de ficar esperando ninguém, porque eu acho que crente tem que chegar na igreja é cedo. Se fico esperando minha família… Deus me livre! Chego no culto na hora do amém! Detesto gente que chega atrasada na igreja, acho ridículo! Chega sem comunhão e tira a comunhão de todo mundo. O que custa chegar mais cedo na casa de Deus? Eu gosto de chegar bem cedo na igreja, por isso pego o carro logo e vou.

Também gosto de ir cedo para poder ir refletindo no caminho. A gente vê cada figura… E dá graças a Deus por ser fiel! No bar da primeira esquina que encontro, por exemplo, lá está meu vizinho. Passa o dia inteiro bebendo. Como pode um pai de família ser assim? Graças a Deus que eu não sou desse jeito. A mulher dele sofre e muito com isso. Se bem né… Que ela é uma adultera! Não é segredo pra ninguém que ela dá suas saidinhas. Basta ver as roupas indecentes que ela veste. Chega a dar vergonha. Não é atoa que o homem passa sua vida bebendo. Se bem que pra mim, o homem não pode ser fraco assim. Tem que ser forte! Imagina só se eu vou ficar me entregando assim aos vícios por qualquer bobagenzinha… Não. Graças a Deus eu sou forte!

Não muito longe do bar, passo em frente ao ponto de ônibus e vejo o filho de um irmão na igreja. Sei não. Os trejeitos desse menino… Não ponho minha mão no fogo por ele de jeito nenhum! Delicadinho demais, sabe? Vinte e seis anos nas costas, não casou, não namora… Hum! So não vê quem não quer… Enfim, também, essa criação que os país dão hoje, não criam homens de verdade nunca! Eu não. Graças a Deus, sou um pai exemplar, criei meus dois filhos – rapaz e moça – na rigidez, na retidão, como deve ser! Meus filhos não vão ser como esses ai não. Imagina só que ontem, vi uma irmãzinha lá da igreja atracada com o namorado na praça. Onde já se viu isso? Logo aparece grávida, e vai por a culpa no inimigo, que tentou… O crente tem que ser firme! Eu mesmo, graças a Deus, sou um crente muito firme! O inimigo não tem vez aqui não! Ponho pra correr!

A verdade é que hoje os tempos são outros. Basta olhar como as pessoas vão pra igreja. Olha a roupa dessas irmãs? Pensam que estão indo pra onde? Pra casa de Deus é que não é! Fora aquelas que pra ir pra igreja põe saião, mas durante a semana, encontramos elas na rua com umas roupas que só Deus na causa! Indecência! Eu não. Graças a Deus, para ir pra casa do Senhor, vou impecável: terno, gravata… E em todo lugar que vou, ando no porte de um crente.

Cheguei na igreja, estacionei, entrei. Vejo a falta de comunhão das pessoas. Conversas, bochichos… Eu, graças a Deus, já vou pra igreja em comunhão! Chego numa comunhão perfeita! Quando fui procurar um banco lá na frente pra sentar, lá na segunda fileira, do lado onde eu sento, vi um rapaz todo estranho. Roupa estranha, cabelo estranho. Um rapaz de mundo, com certeza! Sentei, em comunhão, e fiquei por um momento pensando em tudo o que vi e refleti no caminho. Então ajoelhei e orei:

“Senhor, te dou graças hoje porque não sou como estes pecadores. Leio a bíblia, sou batizado, minhas vestes são decentes. Oro, jejuo, venho sempre à igreja e vivo em comunhão. Não sou como estes pecadores, nem mesmo como este pecador aqui do meu lado. Sou um justo neste mundo de impios…”

Assim que levantei da oração, pude ver o pobre rapaz do mundo, chorando, batendo no peito, exclamando: “Tem misericórdia de mim, Senhor! Porque sou pecador!”

Bem, para estar orando assim, este devia estar cheio de pecado mesmo. Só Deus, né? Graças a Deus que não sou assim…”

*****

O conto que você acabou de ler – e nem sei se dar pra ser chamado “conto”, de tão pequeno que é, rs  – é baseado na parábola do fariseu e do publicano (cobrador de impostos), relatada por Lucas, no capítulo 18, dos versos 9 ao 14.

“Jesus também contou esta parábola para os que achavam que eram muito bons e desprezavam os outros:— Dois homens foram ao Templo para orar. Um era fariseu, e o outro, cobrador de impostos. O fariseu ficou de pé e orou sozinho, assim: “Ó Deus, eu te agradeço porque não sou avarento, nem desonesto, nem imoral como as outras pessoas. Agradeço-te também porque não sou como este cobrador de impostos. Jejuo duas vezes por semana e te dou a décima parte de tudo o que ganho.”— Mas o cobrador de impostos ficou de longe e nem levantava o rosto para o céu. Batia no peito e dizia: “Ó Deus, tem pena de mim, pois sou pecador!”E Jesus terminou, dizendo:— Eu afirmo a vocês que foi este homem, e não o outro, que voltou para casa em paz com Deus. Porque quem se engrandece será humilhado, e quem se humilha será engrandecido.”

(Lucas 18:9-14 – NTLH)

Como diz Lucas: “Jesus também contou esta parábola para os que achavam que eram muito bons e desprezavam os outros”, e este, infelizmente, é um erro que costumamos cometer. Principalmente nós, religiosos. Por observar questões morais, e zelar por elas mais do que as pessoas costumam fazer, temos a tendência a nos achar melhores que os que não são religiosos, e até mesmo melhores do que os nossos colegas de religião, achando que eles não atingem o nosso “nível de espiritualidade”. Justamente para advertir sobre essa tendência que Jesus Cristo propôs este exemplo, onde ele compara o fariseu, religioso da época, conhecido pelo seu conhecimento das escrituras e observância aos ritos religiosos, e o cobrador de impostos romano, conhecido pela sua corrupção e exploração aos pobres. E Jesus propõe uma história interessante, onde o religioso dá graças pela sua justiça enquanto o cobrador de impostos clama por perdão, e lança a questão: quem destes fez uma oração que agradou a Deus?

Ora, por mais religioso que alguém possa ser, ninguém é perfeito. Logo, todos temos falhas para pedir perdão a Deus. E ainda que fossemos tão justos assim, somos por causa da bondade de Deus, e não por causa das nossas qualidades. Logo, não há motivos para arrogância, e nem para olhar o outro debaixo pra cima, como fez o fariseu:

“Agradeço-te também porque não sou como este cobrador de impostos.”

Por que motivo, em nossos pensamentos, nos achamos melhores que o cobrador de impostos, ou melhor que qualquer “impio” do mundo? Por acaso também não temos nossos momentos de egoísmo, raiva, ciume, inveja, ira, cobiças? Lógico que temos, esses são sentimentos humanos que todos nós carregamos. Logo, não há verdade em nós quando agradecemos por não ser como “eles”, uma vez que nós somos sim. A única diferença é que temos acesso à palavra de Deus, e de alguma forma tentamos domar esses sentimentos humanos com mais frequência do que pessoas que não servem a Deus. E ainda assim, nem sempre conseguimos, não é?

Honestidade mesmo havia na oração do cobrador de impostos, que sabia que era corrupto, ganancioso e infiel, e não tentou esconder isso de Deus. Ele poderia estar agradecendo a Deus por não ser como um assassino ou um estuprador, por exemplo, não é? Mas não. Diante de Deus, ele se despiu da sua própria justiça, buscando ser justificado por Deus:

Mas o cobrador de impostos ficou de longe e nem levantava o rosto para o céu. Batia no peito e dizia: “Ó Deus, tem pena de mim, pois sou pecador!”

Feliz daquele que tem fome e sede de justiça, porque este será farto. Não foi assim que Jesus disse? E este cobrador de impostos se humilhou para ver se alcançava a justiça que vem de Deus. A verdadeira justiça que limpa e acalma o coração e a consciência. Enquanto o fariseu varria suas sujeiras para debaixo do tapete, o cobrador de impostos abria as portas da sua casa porque desejava não ter mais nenhuma sujeira em si, mas ser limpo por Deus.

Essa parábola de Jesus, assim como a historinha do capítulo anterior, nos convida a reflexão: quem somos nós? O fariseu, ou o publicano? Tenho certeza que todos nós somos as vezes fariseu, as vezes publicano. Mas podemos melhorar nisso. Podemos ser mais humanos, ter mais compaixão, ter mais humildade. Olhar para nós mesmos e parar de varrer nossas sujeiras para debaixo do tapete, usando o erro do nosso irmão como desculpa.

Essa parábola é um convite para enfrentarmos nossos pecados de frente. E buscarmos a verdadeira justiça, que é Jesus. E é também um convite à humilhação, à renuncia. Renunciar a nossa própria justiça, para ver se Deus nos abraça com a Sua Justiça.

Faça esse desafio. Certamente Deus o abraçará.

“Eu afirmo a vocês que foi este homem (o cobrador de impostos), e não o outro, que voltou para casa em paz com Deus. Porque quem se engrandece será humilhado, e quem se humilha será engrandecido.”  (Jesus Cristo)

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