Olha, eu não queria falar de copa novamente. Afinal, falar de copa – seja a favor ou seja contra – é clichê. O mundo não gira em torno de uma bola, e o futebol não deveria ser idolatrado como a maior benção de uma nação e nem demonizado a ponto de ser considerado – nestes dias – o pior pecado de um crente. Nenhum exagero provém de Deus, lembrando que temperança é apontado por Paulo como um dos frutos do Espírito (Gálatas 5:22).

Mas é justamente a falta de temperança de toda uma sociedade que me chama a atenção e me obriga a voltar neste assunto.

A falta de temperança, e a gritante falta de critério, de prioridade. O excesso de amor a um “ídolo” em contraste a falta de amor ao próximo.

Bem, a menos que você não esteve neste planeta na semana passada, certamente você ficou sabendo da queda do viaduto Guararapes, em Belo Horizonte (uma das “obras da Copa”) na última quinta, 3 de julho. Duas pessoas morreram e mais de 20 ficaram feridas. E se você realmente não resolveu passar o fim de semana em Marte, também deve ter ficado sabendo da contusão do Neymar Jr. na última partida da Seleção, na sexta, 4 de julho. Aliás, um lance até que normal em uma disputa de bola em um jogo de futebol, onde o zagueiro Juan Zuñiga – talvez com maldade – acerta as costas do jogador brasileiro, que sai de campo com uma das vértebras quebradas e só poderá voltar a campo daqui a 6 semanas, ou seja, está fora da copa. (Sim, eu estava assistindo o jogo.)

Ambos fatos tristes: um porque mais de vinte pessoas foram atingidas provavelmente não por uma fatalidade, mas sim pela irresponsabilidade de quem estava envolvido com uma das “obras da Copa”, famosas pelos altos gastos de recursos públicos, pelos atrasos e correrias às vésperas do evento, fatores que provavelmente interferiram na qualidade da obra.

O outro fato também é triste. Claro que é! Imagina você se preparar durante anos para um evento muito importante (que pode ser a copa ou o seu TCC) e no dia tão esperado um acidente acontece e você fica impedido de realizar seu objetivo, sendo obrigado a esperar longos 4 anos para ver se será possível ter outra chance.

E aí, você consegue se colocar no lugar do ser humano Neymar?

Sim, “ser humano” Neymar. É necessário separar o “ser humano Neymar” do “ídolo Neymar”. Como cristão, eu amo em Cristo o ser humano Neymar, e choro com o choro dele, como a Bíblia manda. (Cheguei a ver “crentes” comemorando a contusão de Neymar. Absurdo! Onde está o amor de Cristo nisso? ) Mas como a Palavra também manda, eu nego o ídolo Neymar, e me recuso a me prostrar diante dele e a coloca-lo acima de Deus e dos demais homens, como a mídia insiste em insistir.

“Nossa Bruno, mas como se faz isso? Me explica direito!”

Vamos raciocinar?

Para você, qual destas dores foi mais dolorosa? Qual destas dores você escolheria sentir, se fosse o caso: a dos feridos no incidente do viaduto, a dos mortos neste mesmo incidente ou a dor do Neymar, que está fora da copa?

Ambas são dores dolorosas (não ligue para a redundância, rsrs), mas entre ter seus sonhos interrompidos por 4 anos e ter seus sonhos interrompidos para sempre, eu prefiro a dor do Neymar.

É óbvio que duas pessoas que morrem devido a uma suposta irresponsabilidade é algo muito mais grave, tanto por causa das mortes como por causa da irresponsabilidade, não é?

Mas não é o que estamos vendo. Já faz três dias que todo o noticiário e todas as timelines dão atenção à um mesmo assunto: o “vilão” Zuñiga roubou o sonho do menino Neymar.

E, quem está interessado na dor das famílias de BH que perderam seus entes? Ninguém. Nem a mídia, e nem as pessoas.

Isso é a “valorização do ídolo”, a idolatria tããããão condenada pela Bíblia. Não é apenas o fato de assistir ou não à um jogo de futebol (ou o que quer que seja), mas o peso que você dá as coisas, elevando algumas pessoas ao status de um deus. Quando você faz isso, você automaticamente direciona sua adoração à uns e esquece de praticar o “amor ao próximo” com os outros.

A Globo ter escolhido seu ídolo é algo normal. Neymar dá mais audiência (e dinheiro) do que qualquer mortal que morrer esmagado pro qualquer viaduto neste mundo. Mas, o que leva pessoas como eu e você a fazer essa escolha insana e alienada?

Isso é a acepção de pessoas, tão condenada em Tiago capítulo 2, onde o apóstolo questiona as pessoas por elas “idolatrarem” os ricos que as maltratam e destratarem aos pobres, que na verdade eram como uma delas, ou um de nós.

E não venha com essa conversa politico-religiosa de que “é por isso que eu não assisto a copa”. Nós (você e eu) fazemos acepção de pessoas todos os dias.

Se um mendigo sentar ao seu lado no ônibus você fica incomodado. Mas, e se for um belo homem num belo terno, ou um loira “gostosona”, você fica? Seja sincero!

Você já viu alguém puxando saco de estagiário? Só de patrão, né?

E na igreja (gente, na IGREJA! QUE ABSURDO!): antes de ir congregar, você já procurou se informar sobre quem “vai atender”? Se for o famoso ancião (ou pastor, bispo, ou o que o valha, não sei de que igreja você é..), você não pensa duas vezes em ir. Mas se for o desconhecido…

E ainda poderia falar da fila do banco, ou da sua família onde o “tio rico” recebe mais convites para churrascos do que o “tio pobre”, ou do irmãozinho feio e desprezado que comprou um carro e descobriu o “maravilhoso mundo das irmãzinhas maria-gasolina”… Enfim, o texto está longo demais para eu ficar dando exemplos. Pense você nos casos de acepção de pessoas e até de idolatria que você já presenciou ou participou. Se quiser, poste nos comentários…

Palavras de Tiago para terminar esse longo texto (alias, Deus te abençoe por ter tido a paciência de ler!):

“Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, e atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: “Assenta-te tu aqui num lugar de honra”, e disserdes ao pobre: “Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado”, porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos?
Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos, e não vos arrastam aos tribunais? Porventura não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?
Todavia, se cumprirdes, conforme a Escritura, a lei real: Amarás a teu próximo como a ti mesmo, bem fazeis.
Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redargüidos pela lei como transgressores.”
(Tiago 2:1-9)

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