Perguntar não ofende. Muito pelo contrário: o maior prazer de um professor é encontrar um aluno que demonstre interesse por aquilo que ele ensina. Esse tipo de pergunta não ofende.

Mas existe um outro tipo de pergunta: aquela que vem sorrateira, como um torpedo, para te desestabilizar, te provocar, te tirar do sério, te colocar em situação de vergonha e confusão. Quem faz esse tipo de pergunta, no mínimo subestima a capacidade daquele que está sendo submetido a ela.

E era esse tipo de pergunta – o segundo – que os fariseus amavam fazer a Jesus. Dava pra ver que eles não estavam interessados em aprender sobre o Reino, como era o caso de Pedro: quando Jesus falava sobre como deveríamos lidar com os nossos irmãos em pecado, Pedro perguntou para Jesus “como funcionava esse negócio de perdão”:

“Então Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?”
Jesus respondeu: “Eu digo a você: Não até sete, mas até setenta vezes sete.” (Mateus 18:21-22)

Essa é a pergunta de alguém que está realmente interessado em aprender. Mas as perguntas dos fariseus eram maliciosas, tinham como objetivo colocar Jesus em uma “saia-justa”, num claro ato de falta de reconhecimento de que Ele – Jesus – era o filho de Deus. Um claro ato de falta de fé.

“Dize-nos, pois, que te parece? É lícito pagar o tributo a César, ou não?
Jesus, porém, conhecendo a sua malícia, disse: Por que me experimentais, hipócritas?
Mostrai-me a moeda do tributo. E eles lhe apresentaram um dinheiro.
E ele diz-lhes: De quem é esta efígie e esta inscrição?
Dizem-lhe eles: De César. Então ele lhes disse: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Mateus 22:17-21)

Perguntas como esta podem ser encontradas ao longo dos quatro evangelhos. Até acusado de expulsar demônios pelo poder de belzebu Jesus foi acusado! O.o (Mateus 12:24), mas os capítulos 21 e 22 do evangelho segundo Mateus trás um verdadeiro “bombardeio” de questionamentos.

Logo eles, fariseus. Homens judeus, observadores da Lei. Homens de Israel, primícia do Senhor. Um povo escolhido por Deus para ser os primeiros a provar da Graça de Deus através de todas as promessas que Deus fez no velho testamento através de tantos profetas. Diferentemente de outros povos, eles – fariseus, judeus – já sabiam dos planos de Deus de trazer a Terra o Messias, o Salvador… E Jesus estava lá, provando ser o Messias, com suas obras e palavras. Quem antes havia operado tantos milagres? Quem antes havia pregado de maneira tão sábia?

Mas lá estavam os fariseus, com seus corações endurecidos. Com medo de perderem seu status de “donos da verdade” diante de um jovem que nunca havia estudado a Lei, mas pregava sobre as coisas do céu como nenhum deles. Não foram humildes o suficiente para se reconhecerem como pecadores – que todos nós somos, necessitados da Graça, do perdão. Recusaram a salvação.

Assim fica fácil entender o que Jesus quis dizer com Sua parábola, descrita nos primeiros versículos do capítulo 22 de Mateus.

A parábola proposta por Jesus conta a história de um certo rei (Deus) que ao casar seu filho, esperava que os convidados aparecessem, mas não foi isso que aconteceu. Imagine só: você casando, e os convidados que você convidou com tanto carinho e apreço simplesmente não dão a mínima para você, e principalmente para o seu filho, que está casando. Aliás, como você pai e mãe se sentiria ao presenciar uma cena assim no casamento do seu filho, ou filha?

Era exatamente esse sentimento que Jesus queria demonstrar ao contar essa parábola. Como Deus se sentia ao ver o Seu Filho sendo recusado por aqueles que foram Seus primeiros convidados não à uma festa, mas a Salvação.

A parábola conta que os convidados simplesmente preferiram cuidar de seus negócios, e alguns até mesmo mataram os servos enviados pelo rei para convidar. Pare para pensar no número de servos de Deus que já perderam suas vidas na pregação do evangelho, tanto nos dias da Bíblia como nos dias de hoje.

De volta a parábola: depois de tudo isso, o rei desistiu dos seus primeiros convidados, decidindo assim recomendar aos seus servos convidar a quem encontrasse pela rua, seja bom, seja mau. Mas, na hora da festa, o rei, ao receber os convidados, encontrou um sem as vestes apropiadas, e não teve dúvida:

“Disse, então, o rei aos servos: Amarrai-o de pés e mãos, levai-o, e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.
Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos.” (Mateus 22:13-14)

“…muitos são chamados, mas poucos escolhidos.” Confesso: um trecho que demorei muito para entender. Passei parte de minha infância e toda a minha adolescência temendo ser chamado e não ser escolhido. Sei lá, talvez Deus escolhesse aleatoriamente que deveria ir para o céu e quem não deveria…

Mas a verdade é que não é assim. E nem precisamos recorrer à livros de teologia, nem mesmo a outros versículos bíblicos para comprovar isso. Podemos provar isso aqui mesmo, nesta parábola. Você lembra da recomendação do Rei ao saber que seus primeiros convidados não viriam mais a festa?

“Ide, pois, às saídas dos caminhos, e convidai para as bodas a TODOS OS QUE ENCONTRARDES”. (Mateus 22:9)

Tá vendo. A recomendação era convidar a todos. Sendo maus ou sendo bons (Mt 22:10). E Jesus disse que o convidado só foi lançado às “trevas exteriores” por não se encontrar vestido adequadamente.

Em Apocalipse, encontramos por duas vezes o termo “vestes”, sempre relacionado a boas obras:

“Regozijemo-nos, e alegremo-nos, e demos-lhe glória; porque vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou.
E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos.” (Apocalipse 19:7-8)

Em Apocalipse 7:9, o termo “vestes brancas” nos dá a ideia de pureza, santidade:

“Depois destas coisas olhei, e eis aqui uma multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono, e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas nas suas mãos.” (Apocalipse 7:9)

Assim podemos entender que quando Jesus disse na parábola que aquele homem não foi escolhido porque não se encontrava vestido adequadamente, Ele estava se referindo ao fato de as suas obras não serem boas, não serem justas.

Ok, mas você me dirá: “Somos salvos pela Graça, não por nossas obras”. Sim, é verdade, o livro de Romanos trata profundamente disso. Mas também devemos lembrar que nossas obras não tem poder de nos salvar, mas testemunha a nossa fé ao mundo, como está escrito em Tiago 2:14:26.

O estilo de vida de santidade e obediência a Deus que você adota ao ser coberto pela Graça é que mostra ao mundo o Caminho que você está caminhando, e isso tem um poder evangelizador, inclusive.

Então, o recado que Jesus nos dá em Mateus 22 é: seja humilde em reconhecer que você é um pecador e é um necessitado da Graça, ainda que você já conheça a Deus e já ande no Seu Caminho. Precisamos da Graça de Deus todos os dias da nossa vida. Não a recuse, como fizeram os fariseus. E, uma vez chamado, mantenha suas vestes de maneira apropiada, procurando seguir a Deus em obediência, pois isso é uma prova da sua fé em Deus e na Palavra, e assim você não será apenas um “chamado”, mas também um “escolhido”.

E fica como dica a leitura de Mateus 22.

Fiquem todos com Deus! 🙂

(Especialmente para Sâmella Art, que deu a ideia deste tema.)

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